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Esquemíofris

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(Redirecionado de Neferusobeque)
Esquemíofris
Neferusebeque, Neferusobeque
Busto da cleópatra Esquemíofris.
Busto da cleópatra Esquemíofris.
Faraó do Egito
Reinado 1 806 - 1 802 a.C.XII dinastia egípcia
Predecessor Amenemés IV
Sucessor Sebecotepe I (XIII dinastia)
Pai Amenemés III

Esquemíofris (em grego clássico: Σκεμιοφρις; romaniz.: Skemiophris),[1][2] Sobecaré Neferusebeque (Sobekkaré Sobekneferu) Sobequeneferu ou Neferusobeque (egípcio: Sbk-nfrw, literalmente “Beleza de Sobek”) foi a primeira rainha reinante confirmada, ou “rei mulher”, do Egito Antigo e a última faraó da Décima Segunda Dinastia e do período conhecido como Império Médio. Seu reinado foi breve: durou três anos, dez meses e vinte e quatro dias, segundo o Papiro de Turim, e ocorreu no século XVIII a.C. Ela se distinguiu de possíveis mulheres governantes anteriores por adotar a titulatura real completa, algo geralmente reservado aos faraós homens, embora adaptada para reconhecer seu gênero, com títulos como “filha de Rá” e “Hórus feminina”. Sobequeneferu também foi a primeira governante a associar seu nome ao deus crocodilo Sobeque, tanto em seu nome pessoal quanto em seu nome de trono.[3][4]

Sobequeneferu subiu ao trono após a morte de Amenemés IV, que possivelmente era seu irmão e marido, embora essa relação não esteja comprovada. As razões para sua ascensão ainda são debatidas pelos historiadores. Uma possibilidade é que seu predecessor não tivesse deixado um herdeiro masculino, o que teria aberto caminho para que sua irmã assumisse o trono. No entanto, existem dois possíveis filhos mencionados em registros posteriores, Sobekhotep I e Sonbef, cujos nomes indicam que seriam “filhos de Amenemés”. Caso se refiram realmente a Amenemés IV, isso pode sugerir que Sobequeneferu tomou o trono deles, talvez por considerá-los ilegítimos. Curiosamente, ela nunca associou sua legitimidade a Amenemhat IV, preferindo reivindicá-la por meio de seu provável pai, Amenemés III. Por outro lado, parece que Sebecotepe I modelou seu nome de trono a partir do nome Nebty de Sobequeneferu, o que pode indicar que ele buscava legitimar seu próprio governo por meio da ligação com sua predecessora, além de demonstrar o prestígio que ela possuía.

As evidências contemporâneas de seu reinado são escassas. Sobreviveram apenas algumas estátuas fragmentárias, uma delas com seu rosto, hoje perdido, além de um pequeno conjunto de selos e inscrições. A maioria desses achados provém da região do Faium, onde ela é creditada pela conclusão do chamado “Labirinto”, o templo mortuário ligado à pirâmide de Amenemés III, em Hawara. Uma inscrição importante é um grafite encontrado na fortaleza de Kumma que registra o nível da inundação do Nilo em seu terceiro ano de reinado, indicando que sua autoridade se estendia por todo o Egito. Seu monumento funerário ainda não foi identificado, embora um papiro descoberto em Harageh mencione um local chamado Sekhem Sobequeneferu, que pode se referir a ele. Além disso, uma estela que menciona um administrador de armazém ligado ao seu culto funerário sugere que esse culto esteve ativo após sua morte. Seu governo também aparece em várias listas reais posteriores, datadas dos períodos tutmósida e raméssida, bem como na obra Aegyptiaca, de Manetão.[5]

Neferusebeque era filha do faraó Amenemés III. Manetão refere que era também irmã de Amenemés IV, mas tal afirmação ainda não foi comprovada. Teria ainda uma irmã mais velha, Neferuptá, que teria sido herdeira antes dela. Esta irmã, para além de ter o nome em cartuchos, tinha uma pirâmide própria em Hauara. Contudo, Neferuptá faleceria jovem.[6]

Neferusebeque foi a primeira rainha-faraó para a qual existem provas inequívocas da sua existência e reinado, uma vez que há pelo menos três que poderão ter detido um estatuto semelhante antes dela, mas para as quais não existem provas suficientes: Neith-hotep, Merneith e ainda (esta mais duvidosa), Nitócris. Esta última poderá ser na verdade um homem, com o nome corrompido e facilmente confundido.[7]

O falecimento de Amenemés IV sem um herdeiro varão pode ter levado a que Neferusebeque assumisse o trono, por exatamente três anos, dez meses e vinte e quatro dias, segundo o Papiro de Turim,[8] em pleno século XIX a.C..

A sua morte sem herdeiros simbolizou o término do brilhante desempenho político-administrativo que culminou na Era Dourada da Dinastia XII e do Império Médio. A (provável) extinção biológica da dinastia levou à inauguração da muito mais fraca Dinastia XIII[9].

Monumentos e Sarcófago

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Desenhos de Flinders Petrie do cilindro real de Neferusebeque no Museu Britânico[10]

Foram descobertos poucos monumentos erigidos por ela, mas existem várias estátuas (sem cabeça) que a representariam, incluindo a base de uma outra estátua de uma filha régia, descoberta em Gezer e que traz o seu nome inscrito.[11] Sobreviveu contudo, uma estátua sua com cabeça (ver figura acima): um busto no Museu Egípcio de Berlim (Inv. nº 14476) , perdido na 2ª Guerra Mundial, que pode ser identificado como sendo esta rainha. Uma outra estátua real descoberta em Semna parece representá-la e provar que era da realeza pela inscrição no trono: unificação dos dois países[12] .

Sabe-se que adicionou estruturas ao complexo funerário do pai em Hauara (designado labirinto por Heródoto) e erigiu algumas estruturas em Heracleópolis Magna.

Também se conhece um cilindro onde estão escritos o seu nome e a Titulatura real egípcia, exposto atualmente no Museu Britânico.[13] Um grafito arqueológico na fortaleza núbia em Kumma atesta uma inundação do rio Nilo que atingiu 1,83 metros de profundidade no ano 3 do seu reinado.[14] Uma outra inscrição descoberta no Desetro Leste atesta ano 4, segundo mês da estação peret[15]. As suas obras monumentais associam-na constantemente a Amenemés III, corroborando a teoria de que seria uma filha régia e portanto apenas meia-irmã de Amenemés IV.[11] The Danish Egyptologist, Kim Ryholt chama a atenção para as fontes contemporâneas do reinado que mostram que a rainha nunca adotou o título de Irmã do Rei, mas apenas Filha do Rei, o que apoia a hipótese.[11] Todos os governantes egípcios era intitulados rei, independentemente do género.

A sua tumba não foi ainda identificada, embora possa ter sido enterrada num complexo piramidal em Mazghuna, sem inscrições. É no entanto imediatamente a note do complexo funerário de Amenemés IV. Existe um local, designado de Sekhem-Neferu num papiro descoberto em Harageh, pode ser na verdade o nome da sua pirâmide.

Referências

  1. Fruin, R. I. Manethone Sebennyta, Librorumque ab eo Scriptorum Reliquiis. Britemberga: Tipografia J. G. La Lau. p. 32 
  2. «Chronologie de Manéthon» 
  3. Fruin, R. I. Manethone Sebennyta, Librorumque ab eo Scriptorum Reliquiis. Britemberga: Tipografia J. G. La Lau. p. 32 
  4. «Chronologie de Manéthon» 
  5. Ryholt, Kim S. B. (2022). The Political Situation in Egypt during the Second Intermediate Period, c.1800-1550 BCE. Chicago: Museum Tusculanum Press. p. 477. ISBN 978-8772894218 
  6. Dodson, Hilton, The Complete Royal Families of Egypt, 2004, p. 98.
  7. Ryholt, Kim Steven Bardrum. 2000. "The Late Old Kingdom in the Turin King-list and the Identity of Nitocris." Zeitschrift für ägyptische Sprache und Altertumskunde 127:87–100.
  8. Kim Ryholt, The Political Situation in Egypt during the Second Intermediate Period, Carsten Niebuhr Institute Publications, Museum Tusculanum Press, (1997), p.15 ISBN 87-7289-421-0
  9. Há egiptólogos que consideram Sebecotepe I, fundador da Dinastia XIII, como filho de Amenemés IV. Cf. Kim S. B. Ryholt, The Political Situation in Egypt during the Second Intermediate Period, c.1800-1550 BCE, Museum Tusculanum Press, Carsten Niebuhr Institute Publications 20, 1997. p.185
  10. Flinder Petrie: Scarabs and cylinders with names (1927), available copyright-free here, pl. XIV
  11. a b c Ryholt, p.213
  12. B. Fay, R. E. Freed, T. Schelper, F. Seyfried: Neferusobek Project: Part I, in: G. Miniaci, W. Grajetzki: The World of Middle Kingdom Egypt (2000-1550 BC), Vo. I, London 2015, ISBN 978-1906137434, p. 89-91
  13. Gae Callender, 'The Middle Kingdom Renaissance' in Ian Shaw, The Oxford History of Ancient Egypt, (Oxford Univ. Press: 2003), paperback, p.159
  14. Gae Callender, p.159
  15. A. Almásy, Catalogue of Inscriptions, In: U. Luft (editor), Bi'r Minayh, Report on the Survey 1998-2004, Budapest 2011, ISBN 978-9639911116, p. 174-175

Bibliografia

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  • Dodson, Aidan. Hilton, Dyan. 2004. The Complete Royal Families of Ancient Egypt, Thames & Hudson
  • W. Grajetzki, The Middle Kingdom of Ancient Egypt: History,Archaeology and Society, Duckworth, London 2006 ISBN 0-7156-3435-6, 61-63
  • Shaw, Ian. Nicholson, Paul. 1995. The Dictionary of Ancient Egypt. Harry N. Abrams, Inc., Publishers.
  • Shaw, Ian, Ed. 2000. The Oxford History of Ancient Egypt, Oxford University Press. Graffito ref. pg. 170.