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Uma Mulher do Outro Mundo

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(Redirecionado de Blithe Spirit)
Uma Mulher do Outro Mundo
'Blithe Spirit'
Uma Mulher do Outro Mundo
Poster do filme
 Reino Unido
1945 •  cor •  96 min 
Gênero
Direção David Lean
Produção Noël Coward
Roteiro David Lean
Ronald Neame
Anthony Havelock-Allan
Baseado em Noël Coward
(peça)
Elenco Rex Harrison
Constance Cummings
Kay Hammond
Música Richard Addinsell
Direção de fotografia Ronald Neame
Direção de arte C. P. Norman
Efeitos especiais Tom Howard
Figurino Rahvis
Edição Jack Harris
Companhia produtora Cineguild
Distribuição United Artists
Lançamento Reino Unido 14 de maio de 1945
Estados Unidos 3 de outubro de 1945
Portugal 2 de abril de 1948
Idioma inglês

Blithe Spirit (bra/prt: Uma Mulher do Outro Mundo)[1][2] é é um filme britânico de comédia negra e fantasia de 1945, dirigido por David Lean com direção de fotografia de Ronald Neame e produção associada de Anthony Havelock-Allan é baseado na peça homônima de Noël Coward de 1941, cujo título deriva do verso "Hail to thee, blithe Spirit! Bird thou never wert" no poema "To a Skylark" do poeta Percy Bysshe Shelley. A canção "Always", composta por Irving Berlin é um elemento importante da trama.

O longa-metragem apresenta Kay Hammond e Margaret Rutherford, nos papéis que anteriormente interpretaram na produção original, juntamente com Rex Harrison e Constance Cummings nos papéis principais de Charles e Ruth Condomine. Embora tenha sido um fracasso de bilheteria e uma adaptação decepcionante para o cinema, de acordo com Coward, o filme passou a ser reavaliado por sua fotografia em Technicolor e efeitos especiais avançados pra época,[3] sendo relançado várias vezes, notavelmente como um dos dez primeiros filmes de David Lean restaurados pelo British Film Institute em 2008.[4]

Em busca de material para um romance de temática ocultista em que está trabalhando, o escritor Charles Condomine (Rex Harrison) convida a excêntrica médium Madame Arcati (Margaret Rutherford) para sua casa em Lympne, Kent, para realizar uma sessão espírita. Enquanto Charles, sua esposa Ruth (Constance Cummings) e seus convidados, George e Violet Bradman (Hugh Wakefield e Joyce Carey), mal conseguem conter o riso, Madame Arcati realiza rituais peculiares e finalmente entra em transe. Charles então ouve a voz de sua falecida primeira esposa, Elvira (Kay Hammond). Ao descobrir que os outros não conseguem ouvi-la, ele disfarça seu comportamento estranho dizendo que era uma brincadeira. Quando Arcati se recupera, ela tem certeza de que algo extraordinário aconteceu, mas todos os outros negam.

Após a saída de Madame Arcati e dos Bradman, Charles não consegue convencer Ruth de que estava falando sério ao ouvir a sua falecida esposa. Elvira logo aparece na sala, mas apenas para Charles. Ele fica ao mesmo tempo consternado e divertido com a situação e tenta convencer Ruth de que Elvira está presente, mas a citada pensa que Charles está tentando enganá-la e, bastante chateada, se retira rapidamente para dormir. Na noite seguinte, Elvira reaparece, complicando ainda mais a situação. O relacionamento entre o casal fica tenso até que ele persuade Elvira a agir como um poltergeist e transportar um vaso e uma cadeira para perto de Ruth. Enquanto Elvira continua com suas travessuras, Ruth se assusta e sai correndo da sala.

Ruth pede ajuda à Madame Arcati para enviar Elvira de volta para o lugar de onde veio, mas a médium confessa que não sabe bem como fazê-lo. Ruth avisa seu marido incrédulo que Elvira está tentando se reunir com ele, tramando sua morte. No entanto, o plano travesso da fantasmagórica Elvira sai pela culatra; como resultado, é Ruth, e não Charles, quem foge no carro que ela sabotou e acaba morta. Uma Ruth vingativa, agora também em forma espiritual, atormenta Elvira a ponto de fazê-la desejar deixar o mundo terreno.

Em desespero, Charles busca a ajuda de Madame Arcati. Vários encantamentos falham, até que Arcati percebe que foi Edith (Jacqueline Clarke), a empregada dos Condomines, quem invocou Elvira. Arcati parece conseguir afastar os espíritos, mas logo fica claro que ambos permaneceram. Seguindo a sugestão de Madame Arcati, Charles parte para umas longas férias, mas sofre um acidente fatal (subentende-se que foi causado por Ruth e Elvira) enquanto dirige e se junta às suas falecidas esposas como um espírito.

Produção

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O autor Noël Coward recusou ofertas de Hollywood para vender os direitos autorais da peça, afirmando que a versão americana anterior de sua obra havia sido "vulgarizada, distorcida e arruinada".[5] Os direitos foram então vendidos para a Cineguild, uma das empresas independentes apoiadas pela Rank Organization. O filme foi rodado em Technicolor e marcou a primeira tentativa de David Lean de dirigir uma comédia depois de trabalhar em dois filmes convencionais, In Which We Serve (1942) e This Happy Breed (1944) ambos também escritos por Noël Coward.[6]

Anthony Havelock-Allan considerou o filme um "fracasso" devido à escolha do elenco, que, segundo ele, foi uma exigência de Coward:

O objetivo da peça é mostrar um homem de meia-idade, já em seu segundo casamento, tendo há muito tempo deixado para trás as tolices de sua juventude com sua primeira esposa, uma mulher sensual, e sendo repentinamente "despertado" pelo reaparecimento dela como um fantasma. Rex Harrison não era de meia-idade; e Kay Hammond, embora uma atriz de teatro brilhante, não se saía bem no cinema e também tinha uma dicção muito lenta, o que era difícil em filmes. Quando começamos a filmar as cenas com Kay e Rex, ficou óbvio que Constance Cummings [a segunda esposa] parecia mais atraente para o homem comum do que Kay. Isso prejudicou toda a peça.[7]

Havelock-Allan achou que Cecil Parker, que substituiu Coward no palco, seria uma escolha melhor para o papel principal masculino. Rex Harrison fez o filme depois de ter servido nas forças armadas por vários anos. Mais tarde, ele escreveu em suas memórias:

Uma Mulher do Outro Mundo não era uma peça de que eu gostasse, e certamente não gostei muito do filme que fizemos dela. David Lean dirigiu, mas a filmagem foi sem imaginação e sem graça, uma peça de teatro filmada. Ele também não me encenou muito bem – ele não tem um grande senso de humor... Naquela época, já fazia mais de três anos que eu não atuava, e me lembro de me sentir um pouco inseguro, e quase, mas não totalmente, tão estranho quanto quando comecei, mas Lean fez algo comigo naquele filme que eu nunca esquecerei, e que seria imperdoável em qualquer circunstância. Eu estava tentando fazer uma daquelas cenas difíceis de Noel Coward funcionar... quando David disse: "Eu não acho isso muito engraçado." E ele se virou para o cinegrafista, Ronnie, e disse: "Você achou isso engraçado, Ronnie?" Ronnie disse: "Oh, não, eu não achei engraçado." Então, o que você faz em seguida, se não é engraçado?[8]

Duas casas em Buckinghamshire foram usadas para os exteriores: Denham Mount (casa de Charles e Ruth) e outra em Cheapside Lane (casa de Madame Arcati).[9][10]

A peça tinha sido um grande sucesso, e Coward aconselhou Lean a não acrescentar muita coisa na adaptação, dizendo-lhe: "Apenas encene, meu caro".[11] Apesar disso, Lean fez várias alterações, como a adição de cenas externas, enquanto a peça se passava inteiramente num único cômodo, mostrando cenas como a viagem de carro para Folkestone, que só havia sido mencionada na peça.[12] Talvez o mais importante seja que a cena final, na qual Charles morre e se junta às suas duas esposas como um espírito, não ocorre na peça, que termina com ele saindo de casa depois de zombar de suas ex-esposas, das quais agora está livre. Coward protestou veementemente contra essa mudança, acusando a Cineguild de ter arruinado a melhor história que ele já escreveu.[13]

Margaret Rutherford conenta que o filme "parecia durar uma eternidade", levando seis meses em vez das doze semanas planejadas devido a dificuldades envolvendo a colorização.[14]

Como acontece com a maioria das obras de Coward, Uma Mulher do Outro Mundo é conhecido por seus diálogos sofisticados. Durante uma discussão com Ruth, Charles declara: "Se você está tentando fazer um inventário da minha vida sexual, acho justo avisá-la de que você omitiu vários episódios. Consultarei meu diário e lhe darei uma lista completa depois do almoço." A frase, considerada extremamente ousada pelos censores, foi excluída da versão lançada nos Estados Unidos.[15]

Mídia doméstica

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Uma Mulher do Outro Mundo foi lançado em VHS em 6 de julho de 1995.[16] Em setembro de 2004, a MGM lançou o filme em DVD nos Estados Unidos como um dos oito títulos incluídos na David Lean Collection.[17] A Criterion lançou os box sets David Lean Directs Noël Coward em Blu-ray Região A e DVD Região 1 nos Estados Unidos em 2012, ambos contendo Uma Mulher do Outro Mundo.[18] Este lançamento apresenta uma nova transferência digital em alta definição da restauração de 2008 do Arquivo Nacional do BFI, com uma trilha sonora monoaural não comprimida no Blu-ray. No Reino Unido, os direitos pertencem à ITV.

Recepção

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Bilheteria

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Uma Mulher do Outro Mundo foi incluído como um dos “vice-colocados britânicos” na lista da Kinematograph Weekly's dos filmes de maior sucesso de 1945 nas bilheteiras britânicas.[19][20][21]

Recepção

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Embora tenha recebido críticas positivas, o filme foi uma decepção comercial em ambos os lados do Atlântico, mas hoje é amplamente considerado um clássico.[15] No website agregador de críticas Rotten Tomatoes o longa-metragem tem 78% de aprovação com base em 28 avaliações.[22]


Em 1945, a Variety observou:

“Na medida em que isto é em grande parte uma cópia filmada da peça teatral ... o trabalho de câmera é excepcionalmente bom e ajuda a transmitir a credibilidade da história de fantasmas de forma mais eficaz do que a atuação em carne e osso. As honras de atuação vão para Margaret Rutherford como Mme Arcati, uma médium em transe que faz você acreditar que ela é autêntica. Não há nada de etéreo nesta mulher de 200 libras. Sua personalidade dinâmica tem toda a energia espalhafatosa de Fairbanks Sr em seu auge.”[23]


Na The Nation em 1945, o crítico James Agee escreveu: “O fantasma, que sugere vagamente um bidê com defeito, é muito divertido. Sempre que Margaret Rutherford está em cena, como a médium que inicia e tenta controlar o problema, o filme é maravilhosamente engraçado.”[24]Em 1984, Leslie Halliwell escreveu:

“A direção e a atuação preservam cuidadosamente uma comédia que, em sua primeira apresentação no West End em 1941, alcançou status clássico instantâneo. As réplicas espirituosas mal envelheceram e, no conjunto, trata-se de um trabalho cinematográfico extremamente refinado.”[25]


A crítica Pauline Kael escreveu: “Noel Coward escreveu esta comédia leviana e ectoplasmática em 1941 para proporcionar algum alívio à Londres devastada pela guerra; ela parecia agradavelmente leve nas produções teatrais da época, mas perde um pouco do fôlego nesta versão afetada de David Lean.”[26] Leonard Maltin deu ao filme três estrelas e meia de quatro: “Deliciosa adaptação da comédia-fantasia de Noel Coward ... Rutherford está maravilhosa como Madame Arcati ...”[27]No século XXI, Daniel Etherington, do Channel 4, atribuiu três estrelas e meia de cinco e comentou:

“Como uma versão sobrenatural tipicamente inglesa da contemporânea comédia maluca americana, Blithe Spirit é um deleite, compartilhando com seus equivalentes dos EUA diálogos rápidos e espirituosos que têm origem na performance teatral. Embora a teatralidade possivelmente prejudique o filme ... o vigor das atuações, em conjunto com a marcante fotografia em Technicolor e os efeitos especiais vencedores do Oscar, o elevam ... Rutherford quase rouba o espetáculo, interpretando o tipo de excêntrica e carismática grande-dama que definiria sua carreira.”[28]


Prêmios e indicações

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Prêmio Categoria Recipiente Situação
Oscar 1947 Melhores efeitos visuais Venceu[29]

Referências

  1. Uma Mulher do Outro Mundo no AdoroCinema
  2. «Uma Mulher do Outro Mundo». no CineCartaz (Portugal) 
  3. Street, Sarah (2010). «'In Blushing Technicolor': Colour in Blithe Spirit»Subscrição paga é requerida. Journal of British Cinema and Television. 7: 34–52. doi:10.3366/E1743452109001320. Consultado em 10 de Fevereiro de 2026 
  4. «David Lean». Sight & Sound. British Film Institute. Julho de 2008. Consultado em 10 de Fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 23 de Dezembro de 2009 
  5. Phillips 2006, p. 76.
  6. Phillips 2006, p. 79.
  7. McFarlane, Brian (1997). An Autobiography of British Cinema: As Told by the Filmmakers and Actors Who Made ItRegisto grátis requerido. Londres: Methuen. p. 292. ISBN 978-0-413-70520-4 
  8. Harrison, Rex (1991). A Damned Serious BusinessRegisto grátis requerido. New York: Bantam Books. p. 76. ISBN 978-0-553-07341-6 
  9. Strum, Beckie (25 de Junho de 2019). «English Villa That Starred in 1940s Oscar-Winning Film is Asking £6.5 Million». Mansion Global. Consultado em 11 de Fevereiro de 2026 
  10. «Blithe Spirit (1945) Filming Locations». The Movie District. Consultado em 11 de Fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 19 de Dezembro de 2019 
  11. Phillips 2006, p. 77.
  12. Phillips 2006, p. 77–78.
  13. Neame, Ronald (2010). «The Golden Age: An Interview with Ronald Neame» (entrevista). Karen Stetler. The Criterion Collection 
  14. Rutherford, Margaret (1972). Margaret Rutherford: An AutobiographyRegisto grátis requerido. London: W. H. Allen. p. 51. ISBN 978-0-491-00379-7 
  15. a b Vermilye, Jerry (1978). The Great British FilmsRegisto grátis requerido. Secaucus, New Jersey: Citadel Press. pp. 79–81. ISBN 978-0-8065-0661-6 
  16. Blithe Spirit [VHS], 6 de Julho de 1995, ASIN 6303579612 
  17. David Lean Collection [DVD], ASIN B001AHKH6E 
  18. «David Lean Directs Noël Coward». The Criterion Collection. Consultado em 12 de Fevereiro de 2026 
  19. Lant, Antonia (1991). Blackout: Reinventing Women for Wartime British Cinema. [S.l.]: Princeton University Press. p. 232. ISBN 978-0-691-00828-8 
  20. Murphy, Robert (2003). Realism and Tinsel: Cinema and Society in Britain 1939–48. London: Routledge. p. 208. ISBN 9781134901500 
  21. Billings, Josh (20 de Dezembro de 1945). «The final placings in all classes». Kinematograph Weekly. p. 51. Consultado em 12 de Fevereiro de 2026 
  22. «Blithe Spirit». Rotten Tomatoes (em inglês). Consultado em 12 de fevereiro de 2026 
  23. «Film Reviews». Variety. 158 (7). 25 de Abril de 1945. p. 14 
  24. Agee, James - Agee on Film Vol.1 © 1958 by The James Agee Trust.
  25. Halliwell, Leslie (1984). Halliwell's 100: A Nostalgic Choice of One Hundred Films from the Golden Age. [S.l.]: Paladin. ISBN 9780586084908. Consultado em 12 de Fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 23 de Julho de 2019 
  26. Kael, Pauline - 5001 Nights at the Movies 1991 ISBN 0-8050-1366-0
  27. Leonard Maltin's Classic Movie Guide - Third Edition 2015 ISBN 978-0-14-751682-4
  28. Etherington, Daniel. «Blithe Spirit Review». Channel 4. Consultado em 12 de Fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 10 de Maio de 2009 
  29. «19.º Oscar - 1947». CinePlayers. Consultado em 12 de junho de 2020 
Bibliografia
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Ligações externas

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